terça-feira, 15 de novembro de 2016

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA

QUINZE DE NOVEMBRO DE 1889. O marechal Deodoro da Fonseca, no Campo de Santana, no Rio, reúne 600 militares e uns poucos civis para destituir a Monarquia brasileira, sem derramar uma gota de sangue. Em cerimônia improvisada na Câmara Municipal carioca, a República é proclamada. Chegado o momento das comemorações, constata-se que não há símbolos para celebrar a mudança de regime. Canta-se "A Marselhesa", hino da França, e é hasteada uma bandeira com desenho semelhante à americana nas cores verde e amarelo. É urgente, percebem os republicanos, substituir os símbolos do regime.

Como narram os jornais da época, o povo brasileiro mal entendia o que se passava. Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Silva Jardim, protagonistas do movimento republicano que Brasil, eram pouco conhecidos dos brasileiros. "Ninguém parecia muito entusiasmado", anotou o correspondente do New York Times. "O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que aquilo significava", escreveu Aristides Lobo no Diário Popular.
Na tentativa de conquistar o apoio da população até então alheia a troca de regime, os republicanos esforçaram-se nos meses seguintes para criar e difundir marcas da República – e apagar vestígios do Império de D.Pedro II. Cidades se encheram de estátuas e outros monumentos à República. Ruas, praças e repartições com referências à monarquia mudaram de nome. Mas as grandes apostas de exaltação da República seriam: uma nova bandeira, um novo hino e um novo herói – ou quase isso.

 A DEFINIÇÃO DE UMA NOVA BANDEIRA.

Assim como outros embates travados nos primeiros dias da República, foi marcada pelo conflito entre três correntes ideológicas: o jacobinismo (ligado à Revolução Francesa), o positivismo e o liberalismo. Partidários dessa última escola chegaram a cogitar uma bandeira brasileira semelhante à americana, com listras horizontais amarelas e verdes e um quadrado do lado esquerdo com as estrelas das federações. Como a proclamação fora liderada por militares positivistas e jacobinos, não caiu nada bem a ideia de subordinar o estandarte brasileiro ao norte-americano.


Outras versões foram propostas por defensores das diferentes vertentes ideológicas em conflito (veja abaixo). No fim, a vitória coube aos positivistas, que optaram por manter as cores e formas básicas da bandeira monárquica, retirando os emblemas imperiais: a cruz, a coroa, os ramos de café e tabaco. As estrelas, mantidas por insistência dos liberais, por lembrar a flâmula americana, foram colocadas em um círculo. E tascaram a mais positivista das inscrições: “Ordem e Progresso”. A obra foi do pintor Décio Villares.
Bandeira imperial 
·         Verde - A Casa de Bragança (Dom Pedro I)
·         Amarelo - A Casa de Habsburgo (Dona Leopoldina)
·         Losango - Remete às bandeiras do exército napoleônico
·         Brasão azul com a esfera armilar - Presente desde a bandeira do Principado do Brasil, remete à tradição portuguesa
·         Cruz vermelha - Referente à ordem de Cristo
·         Anel azul carregado com 20 estrelas de prata - Referentes às 20 províncias do Brasil
·         Dois ramos - um de café, o outro de tabaco, representando a agricultura brasileira


Bandeira republicana 


·         Verde e amarelo - Interpretações a posteriori atribuíram as cores às riquezas naturais e minerais do país. Essa explicação, porém, não constava da justificativa de Teixeira Mendes para a nova bandeira

·         Estrelas no céu azul - Reprodução do céu do Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889, com as estrelas representando os Estados da Federação

·         "Ordem e Progresso" - A influência dos positivistas na proclamação da República. Augusto Comte (1798-1857), principal ideólogo do positivismo, escreveu: “O amor por princípio, a ordem por base, e o progresso por fim”. No caso brasileiro, deixaram de fora o amor.

Coube a Teixeira Mendes, um filósofo positivista, a tarefa de justificar o emblema. Escreveu: “...o símbolo nacional devia manter do antigo tudo o que pudesse ser conservado, de modo a despertar em nossa alma o mais ardente culto pela memória de nossos avós. Mas, por outro lado, devia também eliminar tudo quanto pudesse perturbar o sentimento da solidariedade cívica, por traduzir crenças que não são mais partilhadas por todos os cidadãos. Foi justamente o que se fez.”
O símbolo não foi aceito por todos. Duas polêmicas foram levantadas à época: um astrônomo contestou as dimensões do Cruzeiro do Sul na bandeira, dizendo que o eixo da constelação em relação ao polo sul estava invertido (o erro foi comprovado e a bandeira que usamos hoje foi modificada para corrigi-lo). Outra controvérsia foi que o bispo do Rio de Janeiro se recusou a abençoar a nova bandeira por causa da divisa "Ordem e Progresso". Para ele, tratava-se de apologia à Igreja positivista.
No final, apesar da inspiração positivista, as cores da bandeira monárquica foram preservadas: o verde e o amarelo, a despeito de interpretações posteriores que tentam ligá-los às riquezas naturais do país, remetem originalmente às casas imperiais de Bragança e Habsburgo.

Velho novo hino


POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, a manutenção do hino nacional monárquico foi uma vitória popular. Proclamado o novo regime, não havia uma composição oficial para glorifica-lo. A primeira adotada nos eventos oficiais foi A Marselhesa, emprestada da Revolução Francesa. O governo abriu então um concurso para a escolha de um novo hino. Mas um evento popular acabou mudando os rumos dessa história.
Em uma manifestação militar em 15 de janeiro de 1890, ao ouvir novamente A Marselhesa e outras marchas militares, a multidão começou a pedir, como quem pede "toca Raul!", pelo velho hino nacional. Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, decidiu deixar rolar. Há relatos de que presentes até choraram de emoção.
Na audição pública do concurso que havia sido marcado, conta-se que a qualidade média das canções era sofrível. Resultado: se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, o hino fica. A composição de Francisco Manuel da Silva,de 1822, foi mantida e a ela foi acrescentada letra de Joaquim Osório Duque-Estrada.
O concurso do governo para o hino nacional tornou-se, então, uma disputa para eleger certo hino da proclamação da República. Em 20 de janeiro de 1890, membros do governo provisório e uma plateia que lotou o auditório do Teatro Lírico reuniram-se para escolher o vencedor. Ganhou a composição de Leopoldo Miguez, para letra de Medeiros e Albuquerque, cujo refrão diz: 'Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!'
Após a execução do novo hino da Proclamação da República, o povo puxou o hino nacional, como acontecera no evento militar dias antes. Não tinha para ninguém contra o maior hit do patriotismo brasileiro.

A invenção de um herói


OS PRINCIPAIS IDEALIZADORES DA REPÚBLICA, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin Constant, não eram figuras conhecidas além dos círculos militares. A pouca participação popular tornava difícil a consagração de um mito, importante para a aceitação do novo regime. "Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referências, fulcros de identificação", escreveu o historiador José Murilo de Carvalho.
Tiradentes, único dos inconfidentes mineiros condenado à morte, surpreendentemente, caiu como uma luva para o papel de herói.
O mito em torno de sua figura foi criado após sua morte. O mineiro passara quase um século na obscuridade, como traidor da monarquia. Como não havia registros de sua imagem e seus pensamentos, a República teve liberdade para criá-los: tornou-se um idealista pela liberdade do Brasil e suas representações passaram a se assemelhar com as da figura de Cristo — cabelos longos, castanhos, olhar cândido, vestes brancas, crucifixo no peito.
A República se apropriou de Tiradentes como o mártir da República. Foi a mais eficaz das tentativas dos republicanos na construção de um imaginário para o novo regime.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O que houve em Palmares?


Corria pelos engenhos e senzalas da capitania de Pernambuco a notícia de que, para o lado das serras, na região dos palmares, havia um refúgio. Um lugar onde era possível  viver fora do poder dos senhores de engenho e manter vivas tradições africanas recriadas na América. Lá, uma nova sociedade era construída: guerreiros, agricultores, comandantes de guerra, líderes religiosos, etc.

Aquelas povoações foram chamadas de mocambos, acampamentos que poderiam ser desmontados e montados em outras regiões, como estratégia de fuga ou de busca por melhores terrenos. 



 Chegar a essa zona de vegetação de palmares não era tarefa fácil. Após fugir dos engenhos, era necessário trilhar caminhos íngremes e fechados pela mata. Qualquer descuido poderia resultar em recaptura ou morte, pois havia pessoas dedicadas especialmente à perseguição de escravos fugitivos, como os capitães do mato. Mesmo assim, muitos conseguiram chegar ao local, incluindo índios e pessoas livres.  Nos mocambos, os habitantes extraiam dos palmares fibras e palmitos, além de produzir vinho e óleo.

O governo de Pernambuco não aceitava a existência desses mocambos. E, no final do século XVII, contratou o bandeirante Jorge Velho e os demais bandeirantes. O bandeirante assinou um contrato se comprometendo  a destruir os mocambos de Palmares. Em troca, receberiam prisioneiros, terras e benefícios da Coroa.


Em 1694, os homens de Jorge Velho atacaram o mocambo principal de Palmares, localizado no Outeiro do Barriga. Lá estavam Zumbi e seus exército, na capital conhecida como Macaco, protegidos por uma cerca alta que rodeava o local, à espera do ataque. Para rompê-la, os paulistas decidiram subir até o local carregando dois pesados canhões. Após horas de combate entre os que estavam do lado de fora  e do lado de dentro da cerca, as tropas a serviço da Coroa conseguiram entrar em Macaco. Seu principal objetivo era capturar ou matar Zumbi, para provar que Palmares havia sido derrotado. Mas não o encontraram. Estaria ele morto? Teria escapado?


Alguns acreditam que Zumbi havia se suicidado pulando de um penhasco. Teria preferido morrer assim a ser capturado ou morto pelos inimigos. Mas, documentos atestam, que um ano depois, em 1695, um habitante de Palmares que havia sido capturado foi obrigado a ajudar os homens a serviço da Coroa, e informou onde Zumbi estava escondido. Em uma emboscada, o líder palmarino foi capturado e morto. Sua cabeça foi exposta em Recife, para que todos soubessem – principalmente os escravos – que o refúgio de Palmares estava definitivamente destruído.


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O GRITO DO IPIRANGA: UMA FRAUDE OU A IDEALIZAÇÃO DE UM FATO HISTÓRICO?


No centro, em posição mais elevada, está D. Pedro, príncipe regente, montado a cavalo, com uniforme de gala e erguendo a espada.


A comitiva, à direita do príncipe, é formada por dez homens que erguem seus chapéus.
A frente deles, trinta soldados, os Dragões da Independência, com uniforme de gala, formam um semicírculo e erguem suas espadas.

Os soldados, foram pegos de surpresa pelo gesto de D. Pedro, o que se percebe pelo movimento dos animais e pelo quinto soldado (da esquerda para a direita) que se apressa para montar o cavalo.  


Ao fundo, à direita, outros dois soldados também estão começando a montar seus cavalos.

Próximo a eles, há um civil usando cartola que ergue um guarda-chuva; segundo alguns estudiosos, seria Pedro Américo que se autorretratou no quadro.


À esquerda, três figuras populares: um homem conduzindo um carro de boi carregado de toras de madeira e que olha a cena assustado (ou curioso?); 



Atrás, um outro montado a cavalo e mais ao fundo, um negro conduzindo um jumento que segue de costas ao grupo.


O riacho do Ipiranga está em primeiro plano e suas águas respingam na pata do cavalo.


Um casebre, ao fundo à direita, compõe a cena reforçando o caráter rural do lugar; apelidado de “Casa do Grito”, seria um local de pouso para as tropas que viajavam naquele caminho. 





Elementos que não correspondem ao momento retratado Cavalos:

D. Pedro e seus acompanhantes não estavam montando cavalos; na época, em viagens longas, se utilizavam jumentos e mulas, mais resistentes.

 Número de acompanhantes: a comitiva de D. Pedro era formada por poucos integrantes e não quarenta pessoas.

Trajes: D. Pedro I e sua comitiva não viajaram com uniformes de gala que, aliás, sequer existiam na época; eles foram criados depois da independência, assim como os “Dragões”.

Postura de D. Pedro: é improvável que o príncipe regente estivesse com uma aparência tão sadia e posição ereta uma vez que, naquele momento, estava sentindo fortes cólicas causadas pelo cansaço da longa viagem ou pelo jantar na noite anterior.

Casa do Grito: não existia na época; o casebre retratado no quadro foi construído por volta de 1884, portanto muito tempo depois da proclamação da independência.


Pedro Américo sequer tinha nascido quando aconteceu a independência, portanto, não foi testemunha do fato que só foi pintado décadas depois de ocorrido.


Questões de história

1)     Assinale a questão certa

(          ) A mãe de Dom Pedro 1 chamava-se dona Maria I

(          ) Dom João VI era casado com dona Leopoldina

(          ) Carlota Joaquina era amante de Napoleão Bonaparte

(          ) dona Maria I foi quem mandou enforcar e esquartejar Tiradentes em 1792


2)     Preencha a frase

_______________________________era parente de Maria Antonieta, esposa de Luis XVI que foi enforcada na guilhotina.

Em 1821 _____________________ deixou seu filho como príncipe regente do Brasil e voltou para Portugal.

Em 09 de janeiro de 1822 é comemorado o dia do __________________

Em ______________________ Dom Pedro I a margem do Rio Ipiranga declara a independência do Brasil.


3)     Quanto ao quadro de Pedro Américo, assinale a questão certa

(          ) ele foi um pintor que viveu e esteve presente no dia da independência do Brasil

(          ) no dia da independência do Brasil dom Pedro I estava usando uma roupa da gala

(           ) a casinha do quadro da independência foi usada para dom Pedro I fazer o numero 2

(            ) o quadro de Pedro Américo foi pintado 60 anos depois da independência do Brasil.


 Analise a frase: 

O cenário que Dom Pedro encontrou às vésperas do Grito de Ipiranga, escreve Laurentino Gomes em 1822, indicava que o país de 4,5 milhões de habitantes “tinha tudo para dar errado: de cada três brasileiros, dois eram escravos, negros libertos, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo. O medo de uma rebelião escrava pairava como um pesadelo sobre a minoria branca. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes.

Quantos habitantes havia no Brasil?

De cada tres brasileiros quantos eram escravos?

Como era a maioria da população do Brasil?

Os analfabetos somavam em quantos porcento?


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Consciência negra – 20 de novembro.


                  Hoje é dia 20 de novembro, que se comemora o dia da consciência negra. Antigamente, nos meus tempos de escola, comemorava-se o dia 13 de maio. Pois neste dia, a Princesa Isabel assinou a lei Áurea, a partir dessa data, ou seja, 13 de maio de 1888, o Brasil deixou de ter escravos, todos eram livres.

         Contudo, com o passar dos tempos, muitas pessoas não aceitavam essa data como o dia em que o negro conseguiu sua libertação. Porquanto afirmavam que essa “libertação” não dependeu da luta do escravo mas da “boa vontade” dos fazendeiros de café e da Princesa Isabel.  


         Diante disso, uma nova da foi escolhida: 20 de novembro de 1694. O que aconteceu nesse dia? Bom, no inicio do século XVII (1597 à 1694), um grupo de escravos fugiram de uma fazenda e se refugiaram na Serra da Barriga, um lugar com muitas palmeiras. Ali, estabeleceu o Quilombo dos Palmares.

         Os negros podiam caçar, pescar, cultivar o solo e confeccionar artefatos; casar e ter família. Não era somente escravos que se refugiavam no quilombo mas também indígenas, brancos pobres e temos relato de estrangeiros residiram no Quilombo dos Palmares.

         O chefe do Quilombo era Zumbi. Zumbi nasceu em 1655, em um dos acampamentos no Quilombo. Ainda jovem, ele foi aprisionado em 1662 e dado ao padre Antonio Melo que o batizou como Francisco. Ele ensinou ao jovem latim e português e, por sua vez, passou a ajudar o sacerdote em suas missas. Em 1670, o escravo, agora catequisado, foge e regressa à Palmares. 

         Mas, no dia 06 de fevereiro de 1694 – os bandeirantes, liderado por Jorge Velho – invadiram o Quilombo dos Palmares e mataram toda a população local. Zumbi, ferido em combate, conseguiu escapar e resistiu por vários meses. Mas tarde, traído por um homem de sua confiança, foi preso e degolado em 20 de novembro de 1694.
“?”
Nas linhas da história encontram-se relatos de uma gente guerreira, sofrida, mulatos...
De uma gente de cor, mas que cor tem a gente?
Será o mundo azul, branco, preto ou rosa?
Será a dor dos acoites marrom, cinza, clara, escura ou simplesmente dolorosa?
Gente como a gente..gente pra gente...gente feito gente!...
O importante não é ter cor, coroas, troncos ou grilhões.
O ideal é ser igual, porém diferente.
O essencial é amar sem se preocupar que o sangue tem um só tom, que a pele não forma caráter nem põe nome na praça e que em meio às diferenças do tempo e dos relatos,
Somos só raça: a humana”.  Poema de autoria do professor khiones, Colégio Municipal Vera Cruz.

Texto: escrito pelo professor João Vicente Pereira, professor de história no Colégio Municipal Vera Cruz. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

JOVENS E OS GRUPOS TERRORISTAS.



Brian de Mulder tem 21 anos, é belga, mas fala português graças à mãe, a brasileira Rosana Rodrigues, que vive no país há 24 anos. Católico praticante e ex-jogador de futebol, ele nasceu e foi criado no país, que tem uma das melhores qualidades de vida do planeta, mas, paradoxalmente, é um celeiro de extremistas do Estado Islâmico (EI) - estima-se que mais 300 belgas lutem em nome da jihad no Iraque e na Síria.
     Brian, agora um deles, é conhecido como Abu Qassem al-Brazili ("o brasileiro", em árabe). Em entrevista exclusiva ao "Fantástico", da TV Globo, Rosana contou que busca respostas sobre o que levou o filho a se tornar um radical de um dos grupos mais perigosos da atualidade. E revelou que teme que ele se torne um homem-bomba:
"Que meu filho não chegue ao ponto de decepar a cabeça de alguém. E no fundo do meu coração eu sinto que ele jamais faria isso. Jamais seria capaz de perdoá-lo se ele fizesse uma coisa dessas. Tenho medo de eles colocarem ele para se explodir". 
A transformação de Brian começou com uma decepção: o jovem queria ser jogador de futebol profissional, mas aos 17 anos foi dispensado do time onde treinava. Entrou em depressão. Foi nesse momento que os extremistas se aproximaram. Ele começou a frequentar uma mesquita no bairro, onde, segundo a imprensa belga, encontrou extremistas de vários países: Afeganistão, Paquistão, Bangladesh. Em menos de dois anos, tornou-se um deles. Em janeiro de 2013, sumiu.
"Esses rapazes o aconselharam a procurar força em Alá. Disseram que era para ele pedir ajuda ao Deus deles e ao profeta deles para superar a tristeza. Só que infelizmente foi a desgraça da vida do meu filho", diz a mãe, contando que antes Brian era muito católico. "Na maioria das fotos dele no Brasil ou na Bélgica, sempre está com um crucifixo. Ele tinha de várias cores. E sempre cantava uma música do Roberto Carlos, 'Jesus Cristo'".
Um dos grandes medos na Europa é que os jovens extremistas voltem para praticar atos terroristas nos países onde nasceram. E é exatamente isso que os belgas temem que Brian faça. Num vídeo atribuído a ele, o EI ameaça explodir o Atomium, um dos pontos turísticos mais visitados de Bruxelas. Rosana, no entanto, nega que a voz no vídeo - ele não aparece - seja do filho.
"Não é ele. Eles usaram meu filho como cobaia. Enquanto a polícia na Bélgica está ocupada com o Brian, eles estão fazendo as coisas deles em volta".
O prefeito da Antuérpia, Bart De Wever, discorda: "Há testemunhas que o implicam em atentados. A mãe dele quer acreditar que ele seja ingênuo, mas nós devemos considerá-lo um radical perigoso".
A última notícia que Rosana teve do filho foi que ele estava em Aleppo, na Síria. Ela conta que está disposta a uma ação desesperada para reencontrá-lo: "Eu vou para a Síria. A polícia federal falou que eles vão me matar, me estuprar, vão tirar a minha cabeça. Depois que eu encontrar meu filho, eles podem fazer isso".
“O pai e à mãe do Nicolas, seu filho fez uma operação explosiva com um caminhão no vilarejo inimigo de Homs. Que Deus o aceite como mártir”. Essa mensagem, escrita em frânces, foi enviada para Dominique Bons, de 60 anos, em dezembro passado. Apenas cinco meses antes, ela fora pega de surpresa ao ver o filho Nicolas, de 30 anos, em um vídeo na internet em que afirmava ser membro do grupo terrorista Estado Islâmico.
Conhecido como um garoto calmo que jogava bola como atacante, gostava de andar de bicicleta e cuidava bem da avó de 88 anos. Nicolas começou a estudar o Corão por conta própria. Converteu-se em 2010. A mãe, que vive em Toulose, no sul da França, é ateia e conversava esporadicamente com o filho sobre religião. “Ele me dizia que queria uma virgem. Eu respondia que isso estava difícil de encontrar hoje em dia”, diz Dominique, militar aposentada.
Com o tempo o rapaz parou de fumar maconha. Em março de 2013, ele e o meio-irmão Jean Daniel, de 22 anos, disseram aos pais que viajariam de férias para a Tailândia. Nunca mais voltaram. Jean Daniel morreu durante uma batalha perto da cidade de síria de Aleppo, quatro meses antes de Nicolas explodir-se em um atentado em Homs. “não vi nenhum prova de que meu filho morreu. Espero que tudo isso seja mentira”, diz a mãe.
Em três anos de guerra civil, mais de 2000 europeu se juntaram a grupos terroristas na Síria, incluindo a Frente Al Nusra e o Estado Islâmico, que quer criar um califado sem fronteiras regido pela lei islâmica. Nesse intento eles escravizam milhares de meninas, exterminam minorias religiosas, extorquem a população da cidade e degolam os que consideram infiéis . Na semana passada, um jihadista encapuzado e com sotaque britânico usou uma faca para decapitar Steven, o segundo jornalista americano morto assim em duas semanas.
O que leva adolescentes com 15 anos ou mais a tomar um trem ou um avião escondidos da família e levar uma vida  radical nos confins do Oriente Médio é um enigma que começa a ser desvendado.  Muitos são de boa família, que há muitas gerações vive na Europa e se beneficia das vantagens do Primeiro Mundo, como escolas e hospitais gratuitos. “Entre 500 perfis eu estudamos, vimos que eles são todos bons alunos. Os meninos costumam ser mais religiosos e nutrem com mais intensidade esse desejo de mudança. As meninas são mais novas e querem apoiar os homens, formando famílias. Em algum momento, todos acabam sendo usados pelos extremistas que os ajudam a se radicalizar e depois os atraem para uma armadilha no exterior.
Um dia, a francesa Sarah Ali Mehenni, de 17 anos, recebeu correspondência do Grupo Terrorista. A jovem é filha de um francês descendente de argelinos, mulçumano não praticante, e de Severine, que nunca aderiu ao islamismo. Há dois anos, a menina decidiu se converter. A radicalização culminou com a partida dela em março para a Síria, onde se casou com um tunisiano de 35 anos. O irmão mais velho, Jonathan, de 22 anos, explicou a Sarah que o Islã proíbe o casamento sem o consentimento dos pais, mas ela ficou contrariada. “ela mudou completamente a interpretação do texto e não escuta nada que dizemos”, conta Jonathan.

“Foi o lugar mais internacional a que já fui na minha vida. Vi americanos, chineses e coreanos. Escutei gente falando português, mas não consegui distinguir se eram brasileiros”, diz Foad, de 37 anos, que fez duas viagem neste ano para tentar resgatar a irmã Nora, que se uniu ao Grupo Terrorista. Na meia hora que teve ao lado de Nora na Síria, ele a viu magra e pálida. Os dois choraram copiosamente. Foad perguntou se ela queria voltar. Nora bateu com a cabeça na parede, repetindo “não posso, não posso”. O irmão acredita que ameaçaram matá-lo caso ela aceitasse ir embora. Nora fugiu de casa, em janeiro. Ela gostava de assistir ao Disney Channel e a seriados americanos, e saía com as amigas para o shopping. Hoje fala com a família por telefone em ligações esparsas. Nora não pode voltar, mas outros 200 que se arrependeram já conseguiram fazer esse caminho. O mais perigoso, contudo, é aqueles que retornaram e não se arrependeram e podem cometer atentados na Europa.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Independência do Brasil – 7 de setembro!



Perto das 16h30 de 7 de setembro de 1822, um rapaz de 23 anos alcançava o alto de uma colina ao lado do riacho Ipiranga, nos arredores da vila de São Paulo, seguido de alguns acompanhantes. Era o príncipe regente dom Pedro, montado numa mula, coberto de poeira e com as botas sujas de lama. A viagem fora mais uma vez interrompida pela diarréia incomoda que o perseguia desde a partida de Santos, antes do amanhecer. O soldado Francisco de Castro Canto e Melo, que vinha de São Paulo  com noticias dramáticas, alcançou a comitiva, prestes a retomar o curso. Antes que ele desse seu recado,  porém, chegaram a galope dois mensageiros  do Rio de Janeiro. Traziam cartas de José Bonifácio de Andrada e Silva, da princesa Leopoldina.

O sucessor do trono português não podia esperar novidade pior. Os deputados portugueses haviam cassado sua regência sobre o Brasil e anulava todas as suas decisões. Um membro da comitiva, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, relataria quatro anos depois o que viu naquela tarde: “Dom Pedro, tremendo de raiva, arrancou das minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os e os deixou na relva. Caminhou alguns passos, silenciosamente. De repente, estancou já no meio da estrada, dizendo-me: as cortes me perseguem, chamam-me de rapazinho, de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero com o governo de Portugal e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal”. Minutos depois, diante da guarda de honra que o esperava mais à frente, desembainhou a espada para determinar: “Será nossa divisa de ora em diante: Independência ou Morte!”.

Poucos meses depois, nas principais cidades do novo país, muitos homens começaram a mudar alguns de seus hábitos. O deputado baiano Cipriano Barata, por exemplo, passou a se vestir exclusivamente de algodão brasileiro e a usar chapéus feitos de palha de carnaúba – no que foi rapidamente imitado. Os nacionalistas mais empolgados penteavam o cabelo de forma a deixar uma risca definida no meio da cabeça. Era a chamada “estrada da liberdade”, uma forma de simbolizar os caminhos abertos pela independência.  Muitas famílias trocaram seus sobrenomes de batismo por expressões indígenas. Um ramo da família Galvão, de Pernambuco, passaria a se chamar Carapeba. O jornalista, advogado e político negro Francisco Gomes Brandão, um dos fundadores da Ordem dos Advogados do Brasil, adotou o nome de Francisco  Gê Acaiaba de Montezuma.

O cenário que Dom Pedro encontrou às vésperas do Grito de Ipiranga, escreve Laurentino Gomes em 1822, indicava que o país de 4,5 milhões de habitantes “tinha tudo para dar errado: de cada três brasileiros, dois eram escravos, negros libertos, mulatos, índios ou mestiços. Era uma população pobre e carente de tudo. O medo de uma rebelião escrava pairava como um pesadelo sobre a minoria branca. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes.

A adesão ao comando do Imperador, porém, não foi automática em todas as regiões. Rachas em algumas províncias somavam-se à luta com os portugueses. Somente Rio, São Paulo e Minas Gerais aceitaram de pronto as ordens de Dom Pedro. Esse processo foi lento sobretudo no Norte, no Nordeste e no sul. A guerra da Independência, iniciada em fevereiro de 1822, durou 21 meses e matou de  2 a 3 mil pessoas. Em 1825, o governo brasileiro seqüestrou os bens de portugueses que ainda contestavam a independência no Rio, na Bahia, em Pernambuco e no Grão-Pará. E os intimidou a deixar o país.  



sábado, 3 de agosto de 2013

Revolta de longa data
Separadas por mais de dois séculos, as manifestações que tomam as ruas do Brasil, hoje, têm semelhança com as que ocorreram durante o Antigo Regime
Foto: o primeiro estado (Clero) e o segundo estado (nobreza) sobre o terceiro estado (Plebe).

 Para historiadores e cientistas sociais, os eventos que vêm ocorrendo no Brasil nos últimos dias funcionam como uma espécie de laboratório no qual várias teorias são testadas para explicar os acontecimentos. Aos historiadores esse é um desafio ainda maior, já que por estarem mais habituados a refletir sobre o tempo longínquo, a “História do Tempo Presente” se torna mais difícil. É mais fugidia, como há muito advertiu Fernand Braudel. Nem por isso deve se furtar da tarefa de fazê-la.
Aos que conhecem um pouco mais de perto a história dos protestos populares, os acontecimentos recentes podem parecer surpreendentes por sua semelhança com o que se passou há dois ou três séculos no continente europeu e também nas colônias na América. Vários pontos em comum poderiam ser apontados, três se apresentam de maneira muito explícita: o aumento de preços de serviços, o discurso repressor das autoridades e a veiculação de boatos de diferentes tipos.
No momento, já se tornou evidente que as manifestações não eram apenas pelo aumento de 20 centavos na passagem de ônibus em algumas capitais. Porém, quando se argumentou que os manifestantes protestavam por um valor que parecia irrisório, isso não era só uma maneira de desmerecê-los, mas também era uma forma de reduzir as reivindicações das pessoas na rua a apenas uma única causa. Essa era uma impressão muito parecida com a que se tinha dos protestos dos séculos XVII e XVIII. Neste período, dizia-se que bastava apenas uma má colheita provocar uma alta repentina dos preços para que as pessoas ganhassem as ruas e protestassem contra o aumento do preço dos alimentos, como as que aconteceram na França e Inglaterra nas primeiras décadas do século XVIII.
Como os acontecimentos recentes revelaram, o aumento do preço das passagens serviu apenas como um estopim. No Antigo Regime não era muito diferente: quando estourava um protesto, além dos moradores das Vilas se rebelarem contra medidas que causassem o aumento dos custos de vida, eles aproveitavam-se ainda para mostrar toda a sua insatisfação com relação à arbitrariedade de autoridades; ganância de comerciantes; falta de cuidado na administração dos bens da comunidade, entre várias outras queixas. Tanto em uma, quanto em outra época, a questão fiscal desempenhava o papel de catalisar os mais diversos tipos de tensões que estavam latentes na sociedade.
Outra semelhança está no discurso dos governantes. Quando se iniciaram as primeiras manifestações recentes, os discursos dos políticos foram taxativos em classificar os manifestantes como “vândalos”, sempre com respaldo da grande imprensa. Não era muito diferente dos protestos da América portuguesa, por exemplo, em que as autoridades classificavam os rebeldes de bárbaros, principalmente quando havia o envolvimento de negros e índios. Ou seja, parece o mesmo discurso. Seria uma mera coincidência? Afinal, o que aqueles que representavam o poder constituído pretendiam – no passado – conseguir com isso? Classificar as populações de bárbaros ou vândalos não era apenas recurso de retórica. Isso servia para endossar uma repressão violenta seja aos rebeldes do século XVIII, seja aos manifestantes do século XXI.
No mês passado, a opinião dos governantes só começou a mudar quando jornalistas dos grandes meios de comunicação foram alvos da repressão policial. A maneira como a mídia cobria os eventos – inicialmente condenando, mas depois apoiando os de ordem “pacífica” – foi decisiva para essa mudança de percepção. Àqueles que acompanharam os protestos pela internet ou pela televisão facilmente se deram conta das dificuldades para se obter informação segura. Haviam muitas notícias desencontradas, algumas delas veiculadas e rapidamente corrigidas, outras falsas intencionalmente disseminadas com o objetivo de criar um clima de pânico na população.

No Antigo Regime, um dos acontecimentos que talvez melhor exemplifique esse ambiente, certamente tenha sido na Revolução Francesa, durante os meses de julho e agosto, de 1789, momento que ficou conhecido de “O Grande Medo”, sobre o qual Georges Lefebvre escreveu uma obra clássica. Na França, os camponeses receosos que a extinção dos direitos feudais pudesse resultar numa exploração ainda maior dos seus trabalhos, saquearam propriedades, castelos e igrejas, espalhando o pânico entre a população. Nesse período as comunicações eram difíceis e a escassez de informações facilitava a disseminação de boatos. Tanto no Antigo Regime quanto nos dias atuais percebemos uma grande proliferação de rumores. A diferença é que antes eles surgiam em razão da escassez de informações, ao passo que agora são ocasionados pelo excesso.
Apesar dessas características comuns não se pode dizer que o movimento que ainda ganha as ruas do Brasil não seja um fato novo. Ao historiador que se arrisca a escrever a História “no calor do acontecimento” é preciso muita cautela. Os protestos populares guardam a característica de serem imediatos, suas demandas precisam ser atendidas rapidamente, sob o risco de se perder o controle da situação e, nesse aspecto, é possível considerar que os protestos que aconteceram até então foram bem sucedidos, pelo menos em seus objetivos iniciais. As passagens não foram apenas reduzidas como desencadeou um verdadeiro processo de redução das tarifas nas principais capitais do país. É certo que as reivindicações não se reduziam somente a isso e demandas importantes da sociedade brasileira ainda precisam ser alcançadas. Os desdobramentos dos protestos ainda não são conhecidos e somente as rupturas que forem feitas irão dizer se se esta diante de um protesto incomum.



Gefferson Ramos Rodrigues