sábado, 23 de fevereiro de 2013
JOSÉ SARAMAGO – CADÊ A JUSTIÇA.
Começarei
por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa
ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de 400 anos. Permito-me
pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque,
ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de
esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.
Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos
seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja.
Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os
sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver
motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e
isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se
encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua,
juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em
pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes
dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais,
finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia
no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o
sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o
sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o
sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu
ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que
tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça
está morta."
Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum
conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os
marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela
do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por
protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu
queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem
resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do
mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o
seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos
do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem
excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se
calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa,
de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras,
lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar
o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular
foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos,
uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de
cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que
a História nunca nos conta tudo...
Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo,
um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela
morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se
aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua
a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou
aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que
morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham
confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o
direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em
túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a
que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a
da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça
pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem
o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que
chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à
vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida,
sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça
que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em
que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo
direito a ser que a cada ser humano assiste.
Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles
que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para
chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante
assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às
catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse
a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao
cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença
seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso
de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a
possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos
homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por
mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do
corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou
de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa
justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação
terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem
espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos
de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova
justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a
reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do
direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça
dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer
compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há 50 anos na
Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas 30 direitos básicos e
essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se
silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há 400
anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito
que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida,
e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com
vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os
programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada
esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para
enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já
evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela
dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos
seres humanos.
Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me
nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos
sindicatos locais, e, em conseqüência, ao movimento sindical internacional no
seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado
sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo
adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso.
Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a
acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então
direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos
acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.
E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos
para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas
do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e
para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé
comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em
simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe
em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um
sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à
consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais
certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo
e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é.
É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula
de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via
partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim,
que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas
que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo
isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação
democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que
não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem
nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o
mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder
econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas
multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com
aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é
assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos
deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se
tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um
conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie
de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter
olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e
de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais
em meros "comissários políticos" do poder econômico, com a objetiva
missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois,
envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem
introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de
certas conhecidas minorias eternamente descontentes...
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao
efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se
discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado
definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação
dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz
de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou
indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um
debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a
intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os
Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e
aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência
digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos
retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos.
Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que
estamos vivendo.
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um
instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à
torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
1534
O Ato de Supremacia de Henrique VIII
Ao contrário da reforma alemã, a reforma
inglesa não se originou da busca espiritual de um homem que queria conhecer a
Deus mais profundamente. Surgiu de uma combinação de desejo pessoal,
conveniência política e clima espiritual de uma nação.
A disposição da Inglaterra era de se afastar da Igreja
Católica. John Colet, pároco da Igreja de São Paulo, insistia na reforma do
clero e no retorno ao estudo da Bíblia. Um grupo de estudiosos de Cambridge,
que seguia os ensinamentos de Lutero, ficou conhecido por "Pequena
Alemanha". O clero, surpreso, não foi capaz de deter a expansão da
Reforma.
Contudo, o rei da Inglaterra, Henrique VIII, tinha
pouco interesse em mudanças no campo espiritual. Em 1521, atacou a idéia de
Lutero com relação aos sacramentos e recebeu do papa o título de "Defensor
da Fé". Seu interesse em questões espirituais era mínimo.
Depois da morte de seu irmão, Henrique se casou com
sua cunhada, Catarina de Aragão. Eles não tiveram filhos, o que impedia que
Henrique de ter um sucessor ao trono. Atraído por Ana Bolena, o rei procurou se livrar da esposa estéril, para conseguir
outra que pudesse lhe dar herdeiros. Com a
justificativa de que não poderia ter se casado com a viúva de seu irmão
mais velho, citando Levítico 20.21 como fundamento bíblico para sua posição,
pediu ao papa que lhe concedesse o divórcio.
O papa temia enfurecer o imperador do
Sacro Império Romano, Carlos V, sobrinho de Catarina, e terminou por impedir
que o rei inglês alcançasse seu intento.
Henrique, impaciente, decidiu nomear
Tomás Cranmer para a posição de arcebispo de Cantuária, e o novo arcebispo
concedeu o divórcio ao rei. Henrique, rapidamente, casou-se com Ana, e, no mesmo ano — 1533 — ela deu à luz uma criança, Elisabete.
Em 1534, o Parlamento inglês promulgou o Ato de Supremacia, declarando
que o rei era "o chefe supremo da Igreja da Inglaterra". Isso não
significava que o rei pretendia implementar mudanças teológicas radicais na
igreja. Ele simplesmente queria uma igreja estatal sobre a qual o papa não
tivesse autoridade. A lei que trouxe uniformidade à nova igreja, o Estatuto dos seis artigos, mantinha
o celibato do clero, a confissão de pecados aos sacerdotes e as missas
particulares.
Contudo, é preciso destacar que
Henrique acabou com os mosteiros, que se tornaram símbolo do hedonismo e da
imoralidade. O rei não levou em conta a preocupação de muitos cristãos
dedicados com relação a esse assunto. Em vez disso, tomou as terras da igreja.
Depois de fechar os mosteiros, confiscou as propriedades e colocou o dinheiro
no tesouro real. As terras foram passadas aos nobres em troca de lealdade ao
rei.
Com o intuito de promover o
nacionalismo inglês, Henrique ordenou que a Bíblia em inglês fosse colocada em
todas as igrejas.
Embora Henrique não tenha feito isso
por razões de escrúpulo, ele criou uma igreja que não era mais a Igreja
Católica Romana. Nos anos que se seguiram, a filha mais velha de Henrique,
Maria, tentaria levar a Inglaterra de volta ao catolicismo, mas isso não durou
muito tempo. Uma vez separada do papa, a Igreja da Inglaterra não mais se
juntou a ele. As sucessivas ondas de Reforma na Inglaterra foram rápidas e
tumultuadas. Como veremos nos capítulos a seguir, essas ondas promoveram uma
riqueza e uma diversidade de expressão cristã, que, certamente, teriam deixado
Henrique perplexo.
1517
Martinho Lutero afixa As noventa e cinco teses
"Tão logo a moeda no cofre
ressoa, a alma sai do purgatório."
Essa era a curta mensagem musicada de propaganda de João Tetzel, o homem
autorizado a conseguir dinheiro para construir uma nova basílica em Roma. Seu
esquema para o levantamento de fundos — a
venda de indulgências — era, simplesmente, a venda do perdão. "Faça
com que os seus entes queridos, que já partiram, saiam do purgatório por uma
pequena taxa e ganhe algum crédito adicional para os seus pecados."
A corrupção reinava na igreja. Os
cargos eclesiásticos eram comprados por nobres ricos e usados para alcançar
mais riqueza e mais poder. Um desses nobres foi Alberto de Brandemburgo, que
pedira dinheiro emprestado para se tornar arcebispo de Mainz e que precisava
encontrar um modo de pagar seu empréstimo. O papa autorizou a venda de
indulgencias na região de Alberto, contanto que metade do dinheiro coletado
fosse usada para a construção da Basílica de São Pedro em Roma. O restante do
valor levantado iria para Alberto. Todos estavam felizes, a não ser certo
número de alemães devotos, dentre os quais estava Martinho Lutero.
Lutero, sacerdote e professor de
Wittenberg, opunha-se totalmente à venda das indulgências. Quando Tetzel chegou
àquela localidade, Lutero redigiu uma lista de 95 queixas e a afixou na porta
da igreja, que também servia como quadro de avisos da comunidade. O perdão
divino certamente não poderia ser comprado e vendido, dizia Lutero, uma vez que
Deus o oferece gratuitamente.
indulgências, porém, eram apenas a
ponta do iceberg. Lutero se rebelava contra toda a corrupção da igreja e
pressionava para que uma nova compreensão da autoridade do papa e das
Escrituras fosse adotada. Tetzel saiu logo de cena (morreu em 1519), mas Lutero
prosseguiu, vindo a liderar uma revolução religiosa que mudou radicalmente o
mundo ocidental.
Lutero nasceu em 1483, em uma família
de camponeses em Eisleben, Alemanha. Seu pai, um mineiro, levou-o a estudar Direito,
enviando-o à Universidade de Erfurt. Contudo, o fato de ele ter sido poupado da
morte quando um raio caiu muito próximo dele fez com que Lutero mudasse de
idéia. Ele entrou para um mosteiro agostiniano em 1505, tornando-se sacerdote
em 1507. Reconhecendo suas habilidades acadêmicas, seus superiores o enviaram
para a Universidade de Wittenberg a fim de que obtivesse o diploma em Teologia.
A inquietação espiritual que
atormentava outros grandes cristãos, ao longo de todas as eras, também
influenciou Lutero. Ele estava profundamente consciente do próprio pecado, da
santidade de Deus e de sua total incapacidade de obter o favor divino. Em 1510,
Lutero viajou para Roma e ficou desiludido com o tipo de fé mecânica que
encontrou ali. Fez tudo o que pôde para ser verdadeiramente piedoso. Subiu, até
mesmo, a escada de Pilatos, em que Cristo supostamente caminhou. Lutero orava e
beijava cada degrau à medida que prosseguia, mas, mesmo ali, suas dúvidas ainda
fervilhavam.
Poucos anos depois, voltou para
Wittenberg como doutor em Teologia, para ensinar disciplinas relacionadas à
Bíblia. Em 1515, começou a lecionar sobre a epístola de Paulo aos Romanos. As
palavras de Paulo consumiram a alma de Lutero.
"Minha situação era que, apesar
de ser um monge impecável, eu me punha diante de Deus como um pecador
perturbado por minha consciência e não tinha confiança de que meus méritos
poderiam satisfazê-lo", escreveu Lutero.
"Noite e dia eu ponderava, até
que vi a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que Ό justo viverá
pela fé'. Então, entendi que a justiça de Deus é a retidão pela qual a graça e
a absoluta misericórdia de Deus nos justificam pela fé. Em razão dessa
descoberta, senti que renascera e entrara pelas portas abertas do paraíso. Toda
a Escritura passou a ter um novo significado [...] esta passagem de Paulo
tornou-se, para mim, o portão para o céu".
Assim, mais confiante em suas crenças
e com algum apoio de seus colegas, Lutero sentiu-se livre para falar contra a
corrupção. Ele já criticava a venda de indulgências e a adoração das relíquias
mesmo antes de Tetzel aparecer em sua região. Tetzel simplesmente fez com que o
conflito alcançasse uma posição de destaque. As noventa e cinco teses de
Lutero eram profundamente restritas, caso consideremos a sublevação que
provocaram. Afinal, eram apenas um convite ao debate.
Ele realmente conseguiu um debate,
primeiramente com Tetzel e, mais tarde, com o renomado estudioso João Eck, que
acusou Lutero de heresia. No primeiro momento, parecia que Lutero esperava que
o papa concordasse com ele sobre o abuso na questão das indulgências. Conforme
a controvérsia continuou, Lutero, porém, solidificou sua oposição ao papado. Em
1520, o papa emitiu uma bula (decreto) condenando as idéias do monge alemão, e
Lutero a queimou. Em 152 1, a
Dieta (concilio) de Worms ordenou que Lutero se retratasse. Ali, segundo a
lenda, Lutero afirmou: "Não posso fazer outra coisa. Aqui estou. Deus me
ajude. Amém".
Depois disso, Lutero foi excomungado,
e seus escritos foram banidos. Para sua proteção, foi levado à força por seu
patrono Frederico, o Sábio, e ficou escondido no castelo de Wartburg. Ali, ele
trabalhou em outros escritos teológicos e na tradução do Novo Testamento para o
alemão popular.
Contudo, a batalha apenas começava.
Quando ousou fazer oposição ao papa, Lutero despertou os sentimentos de
independência tanto nos nobres alemães quanto no povo em geral. A Alemanha se
tornou uma colcha de retalhos, à medida que alguns nobres apoiaram Lutero e
outros permaneceram leais a Roma. A Reforma já estava em preparação também na
Suíça, liderada por Ulrico Zuínglio. A igreja e o Sacro Império Romano voltaram
sua atenção para as batalhas políticas que se estenderam por toda a década de
1520. Quando decidiram agir de forma enérgica contra os reformadores, já era
tarde demais.
Uma reunião realizada na cidade de
Augsburgo, em 1530, chegou perto de fazer com que a causa luterana voltasse a
ficar sob a tutela romana. Filipe Melâncton, amigo de Lutero, preparou uma
afirmação conciliatória das idéias de Lutero, apresentando seu ponto de vista
como um posicionamento fiel ao catolicismo histórico. Porém, o concilio
católico exigiu concessões que Lutero não faria, e a ruptura se tornou
definitiva.
Em retrospecto, parece que os acontecimentos da Reforma devem muito à personalidade única de Lutero. Se não fosse sua dúvida profunda, talvez jamais tivesse garimpado as verdades das Escrituras como fez. Sem seu zelo pela justiça, talvez nunca afixasse seu protesto na porta da catedral. Sem sua impetuosidade, talvez jamais atraísse um número significativo de seguidores. Ele viveu em um tempo propício às mudanças e era o homem indicado para fazer com que acontecessem
terça-feira, 2 de outubro de 2012
O artista da Capela Sistina – a historia de Michelangelo.
Certa manhã
no inverno de 1494, o jovem Michelangelo Buonarroti olhava pela janela a cidade
coberta de branco. A neve que caíra durante a noite inteira cobria as ruas,
praças, igrejas e palácios, transformando Florença numa cidade de mármore. Mas
a bela paisagem entristecia Michelangelo, pois lhe recordava que se amigo e
patrono, o duque Lorenzo de Médici, não mais existia. Lorenzo fora o primeiro a
reconhecer o talento do jovem escultor, recebera-o em seu palácio e lhe
encomendara várias esculturas em mármore.
Agora,
depois da morte do duque, seu filho Piero assumira seu lugar. Piero era um bobo
vaidoso e não via utilidade para artistas da estatura de Michelangelo. Gostava
de festas, jogos e cavalos, e admirava mais um cavalariço que sabia montar bem
do que um mero escultor.
Uma
batida na porta despertou Michelangelo do devaneio.
Pela janela, viu que era um dos impudentes
mensageiros de Piero. O mensageiro olhou para cima e, dando com o escultor na
janela, gritou: _Desça aqui, Michelangelo! É o seu dia de sorte. Piero me
mandou buscar o famoso escultor para encomendar uma estátua!
_
Ande logo! – tornou a gritar o mensageiro. – Rápido! Sua Magnificência não vai
esperar a vida inteira!
_Tem
certeza? – perguntou Michelangelo. _ Piero nunca me chamou ao palácio.
_
Pois está chamando agora, meu amigo. Tem um bloco de mármore enorme para você
usar seu dom. Ande logo!
_
Michelangelo vestiu o manto e correu escada abaixo e seguiu o mensageiro em
silencio, mas seu coração saltava a cada passo.
_
É o seu dia de sorte, hein? – escarnecia o mensageiro, cruzando a praça, cheia
de neve. – Trabalhar de novo para a nobre família Médici; pode existir coisa
melhor?
Pouco
depois chegaram ao palácio. Encontraram Piero com alguns amigos, junto à janela
de um aposento do segundo andar.
_
Aí estar! – exclamou Piero. – Deve ter pensado que eu nunca chamaria voce,
jovem mestre! Mas estamos precisando da sua arte hoje. Você tem mesmo muito
talento, não tem, meu amigo?
Michelangelo
olhou diretamente nos olhos de Piero.
_Seu
pai achava que sim – respondeu, sério.
Piero
enrubesceu levemente, mas virou-se
para a janela e continou: _ Vou dar um jantar essa noite e quero mostrar uma
bela estátua sua aos meus convidados. O material está no jardim: camadas de
mármore branco com que voce tanto sonha, cobrindo todo o chão. É claro que
amanhã de manhã o sol derreterá sua obra de arte, mas nada dura para sempre,
não é verdade, mestre?
Michelangelo
empertigou-se. Não podia crer no que
ouvia. Ele, Michelangelo, o orgulho de Florença, fazer uma estátua de neve!
Sentiu
a raiva subir em seu peito, apertar seu coração, prender sua respiração,
contrair sua garganta. Viu o sorriso zombeteiro de Piero, e seus amigos. Teve
vontade de matar, esmagar todos eles, fazê-los sentir sua fúria. Mas não
ousava. A vergonha tomou o lugar da raiva, queria sair correndo, se esconder e
nunca mais ser visto por aquele bando de tolos arrogantes.
Alguma
coisa dentro dele no entanto o fez permanecer ali. Era um momento difícil de
suportar, mas Michelangelo confiava em si mesmo. Sabia possuir um talento raro
e nada seria obstáculo à sua arte. As ondas de raiva e humilhação se
desfizeram, e ele encontrou uma resposta: _ Atenderei ao seu pedido, nobre
Médici.
Abandonou-os
e momentos depois chegava ao jardim, aliviado por estar só, o olhar fixo no
imaculado lençol branco estendido a seus pés.
_
Vou mostrar o meu talento – murmurou. _ Até a neve serve à minha arte.
Começou
a trabalhar com presteza. Empilhou a neve, fez um monte bem batido, empilhou
mais, socou mais. Passou horas empilhando neve até conseguir um bloco enorme e
bem rígido, com os de mármore.
Começou
a esculpir, com o melhor de seu talento. Uma cabeça emergiu, os braços, mãos,
pés. A massa de gelo ganhava vida. Uma figura vigorosa nascia no jardim.
Afastava-se para avaliar o trabalho e voltava,
alheio a tudo, exceto à sua arte. Enfim ficou pronta a enorme estátua de
neve.
Deu
por terminada. Era um belo trabalho. Amanhã nada restaria dele, mas, por
algumas horas, faria Florença mais bela.
Uma
exclamação de assombro arrancou Michelangelo da contemplação da própria obra.
Piero estava parado, atrás dele, boquiaberto diante do imenso homem de neve. O
sorriso de escárnio tinha se transformado num brilho de admiração nos olhos de
Piero, mas o olhar deslumbrado logo deu lugar a uma nuvem de tristeza.
_ Neve! ... Neve, não – murmurou. _ é
uma coisa tão bela devia durar para sempre.
Os
anos se passaram. Michelangelo conquistou a admiração de toda a Itália. Um dia
foi chamado a Roma para atender a uma encomenda do papa Júlio II. Cheio de
entusiamo, foi às minas de mármore de Carrara, disposto a selecionar os
melhores blocos. Encantando com as pedras gigantecas, via no interior de cada
uma um ser à espera da libertação por meio do seu cinzel. Passou seis meses
examinando, escolhendo, comprando, rejeitando, a mente repleta de imagens
futuras.
Quando
chegou a Roma, porém, o papa havia mudado de idéia. Levou-o à Capela Sistina,
um grande retângulo de altas paredes e teto em abóboda.
_
Vamos decorar o teto! – disse o papa. – Voce vai pintá-lo. Michelangelo
empalideceu.
_Mas
sou escultor! – protestou. – Não sou pintor.
_
Voce não aprendeu a misturar tintas com mestre Ghirlandaio? É só lembrar o que
ele lhe ensinou!
_
Mas não pinto há muitos anos! Chame Rafael. Ele é excelente pintor.
_
Claro que não. Rafael está ocupado. Além disso, vi muitos desenhos seus. São os
melhores.
Michelangelo
olhou para o teto alto. Centenas de metros quadrados para cobrir de pinturas –
levaria meses. Pensou nos blocos de mármore, que estariam parados, inúteis por
todo esse tempo, e estremeceu. Não era o que queria fazer! Mas engoliu a raiva
e o desapontamento. Não era fácil dizer não ao papa, principalmente a um papa
tão insistente. E aceitou, mas com o coração pesado.
E
lá se foi Michelangelo escada acima, para pintar deitado num andaime. Era um
trabalho torturante. As tintas caíam em seu rosto, queimavam seus olhos, e cada
vez ele odiava mais aquela missão.
_
Sou escultor, não pintor! – resmungava.
Havia
muitos anos não pintava, e receava não ser capaz. Pediu ajuda a outros
artistas, mas logo descobriu que atrapalhavam mais do que ajudavam.
Dispensou-os e apagou tudo que haviam feito. Trabalhando sozinho, em contato
somente com seu ajudante de preparo de tintas e com o papa. “Se vale a pena ser
feito, vale a pena ser bem feito”, dizia a si mesmo. E prosseguia deitado,
pintando no silencio e na solidão.
Um
dia viu, horrorizado, que a superfície recém-pintada começava a mofar.
_
Eu avisei a Sua Santidade que não sou pintor! _ gritou _. _ Tudo que já fiz está estragado! _ Mas em
seguida descobriu que apenas tinha posto água demais no gesso e não prejudicara
o resultado.
E
prosseguiu. Começava a pintar ao raiar do dia e só parava quando não enxergava
mais as cores. Muitas noites nem saía da capela. Acostumou-se tanto à incômoda
posição que, quando recebia uma carta,
inclinava a cabeça para trás e levantava a carta para ler. Mal parava para
comer, contentando-se geralmente com um pedaço de pão. Adoeceu de exaustão. Mas
prosseguia.
Às
vezes o papa, muito impaciente, subia ao andaime para fiscalizar a obra.
_Quando
vai terminar? – e era invariável pergunta.
_
Quando eu acabar! – era invariável resposta.
Gradualmente
emergiam do teto as mais perfeitas formas criados por mãos humanas. Deus Pai
separando a luz e as trevas; a criação de Adão e Eva; a expulsão do paraíso; o
dilúvio. Uma após outra, iam surgindo do pincel de Michelangelo mais de
trezentas figuras, sublimes, plenas de força e grandiosidade das esculturas do
mestre.
Passados
quatro longos anos de fadiga e isolamento, a imensa tarefa foi terminada. O
andaime foi retirado, as portas da Capela Sistina foram abertas. As pessoas
vinham olhar, boquiabertas diante da magnitude da obra de arte. Quando Rafael
apareceu – mesmo Rafael que Michelangelo pedira ao papa que contratasse em vez
dele -, agradeceu a Deus ter nascido no mesmo século que Michelangelo.
Ainda
hoje as multidões que visitam a Capela Sistina admiram o teto, extasiadas
diante da obra de um único homem cobrindo tamanho espaço com tanta maestria
artística, trazendo à vida tantas visões grandiosas. Calam-se maravilhados
perante o resultado da determinação e do gênio de um homem, das pinturas mais
magníficas do mundo criadas pelas mãos de um escultor.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
E se D. João VI não tivesse vindo? A história da Independencia do Brasil.
Desde o início da Revolução Francesa (1789) e, sobretudo, desde a execução de Luís XVI em 1793, o ambiente nas cortes européias era de inquietação. Em Portugal e na Espanha, era também de temor, devido à ligação familiar de seus soberanos com os Bourbon de França. Este enlace vinha desde Felipe V (1683-1746), neto de Luís XIV, que inaugurara o reinado dos Bourbon na Espanha. Em Portugal, a presença dos Bourbon era representada por Carlota Joaquina, mulher do príncipe regente.
Guilhotinado Luís XVI, declararam guerra à França o rei da Espanha, Carlos IV, e seu genro, o príncipe regente português D. João VI. Mas a Espanha não era mais, como nos tempos de Felipe II, uma das primeiras potências da Europa. Apenas dois anos depois, celebraria com a França Revolucionária os tratados de paz de Basiléia, que obrigaram Portugal a recuar também.
A situação piorou consideravelmente a partir de 1799, quando Napoleão Bonaparte, encorajado pelas vitórias na Itália e no Egito, foi eleito primeiro cônsul. O corso lançou então uma campanha que transformou em pânico o que antes era apenas preocupação entre as monarquias européias. Uma após outra, Áustria, Prússia e Rússia, as principais potências, foram derrotadas e forçadas a assinar tratados desvantajosos, quando não humilhantes. Somente a Grã-Bretanha se mantinha de pé, protegida pela geografia e pela força de sua Marinha de Guerra. Em 1801, o único país continental que ainda não rompera com a Coroa britânica, por pressão de Napoleão, era o pequeno Portugal.
A corte portuguesa – governada desde 1792 pelo príncipe regente D. João em decorrência da doença de sua mãe, D. Maria I – vivia um impasse, pressionada em terra por Napoleão e no mar, pela Grã-Bretanha. O príncipe regente angustiava-se. Não fora educado para governar e não gostava de governar. Tornara-se herdeiro forçado do trono após a morte do irmão mais velho, D. José, em 1788. De natureza pacífica e tímida, hesitava diante de decisões difíceis. E nada mais difícil do que aquilo que o desafiava. Sua própria corte dividia-se entre simpatizantes dos ingleses (anglófilos), como D. Rodrigo de Sousa Coutinho, primeiro conde de Linhares, e dos franceses (francófilos), como Aires José Maria de Saldanha Albuquerque Coutinho Matos e Noronha, segundo conde da Ega, e Antônio de Araújo e Azevedo, primeiro conde da Barca. D. João buscava equilibrar-se na missão quase impossível de não desagradar a nenhum dos dois lados. Mas o cerco se estreitava.
Em 1801, a França convenceu a Espanha, sua aliada, a assinar um ultimato conjunto exigindo de Portugal o rompimento com a Grã-Bretanha. Sem esperar pela negociação, forças espanholas, comandadas pelo poderoso primeiro-ministro Manuel de Godoy, invadiram o Alentejo e o dominaram em apenas 18 dias, no que ficou conhecido como a Guerra das Laranjas (1801). No mesmo ano, Portugal foi forçado a assinar um tratado humilhante em Badajoz, obrigando-se a fechar os portos e o território à Grã-Bretanha.
As seguidas vitórias de Napoleão agravavam a situação do governo português e faziam crescer a influência do partido francês. Araújo e Azevedo tornou-se ministro dos Negócios Estrangeiros em 1803, quando foi assinado o Tratado de Madri, que estabelecia a neutralidade entre França, Portugal e Espanha. No ano seguinte, o general Andoche Junot foi nomeado ministro francês na corte portuguesa. Carlota Joaquina tentou dele se aproximar no intuito de selar a paz entre os dois países. Para D. João, no entanto, a pressão revelou-se excessiva. Em 1805, ele entrou em profunda depressão, isolando-se entre os frades do convento de Mafra. A loucura da mãe, D. Maria I, fazia com que surgissem os piores receios sobre a natureza de sua doença.
O isolamento do regente deu motivo a um complô palaciano, chamado de Conspiração do Alfeite (1805-6). Os conspiradores visavam interditar o príncipe e entregar a regência a Carlota Joaquina. Descobertos, D. João impediu que fossem punidos com o rigor da lei. Mas seu estado não melhorou. Em 13 de agosto de 1806, a própria Carlota Joaquina escreveu à mãe, Maria Luísa, rainha de Espanha, dizendo que D. João estava “con la cabeza perdida quasi del todo” e pedindo uma intervenção em favor dela e de seus filhos. No ano seguinte, Napoleão deu mais uma volta no torniquete. Tendo derrotado os russos em junho na batalha de Friedland, sentiu-se livre para se voltar para o outro extremo da Europa, impaciente com as contemporizações portuguesas e insatisfeito com os acordos com a Espanha.
Em agosto, intimou Portugal a cortar totalmente as relações com a Grã-Bretanha, aderir ao bloqueio continental e seqüestrar os bens dos súditos britânicos, ao mesmo tempo em que concentrava tropas na fronteira com a Espanha, sob o comando de Junot. A corte de Lisboa continuou o jogo duplo. Em setembro, aderiu ao bloqueio continental, que fechava todos os portos europeus ao comércio com a Inglaterra. No mês seguinte, celebrou uma convenção secreta com os britânicos, contemplando a possível transferência da corte para o Brasil e a abertura dos portos coloniais. No mesmo mês, França e Espanha assinaram o Tratado de Fontainebleau, pelo qual decidiam a partilha de Portugal. Araújo e Azevedo ainda enviou o marquês de Marialva para tentar negociar, levando diamantes de presente. Mas o marquês não passou de Madri. Em outubro, Napoleão mandou Junot entrar na Espanha com 28 mil homens, a caminho de Lisboa. Jogando uma última cartada, D. João decretou a prisão dos súditos britânicos e o seqüestro de seus bens. O ministro britânico Lord Strangford fechou a legação, deixou Lisboa e recolheu-se aos navios da esquadra britânica ancorada perto da foz do Tejo.
A 17 de novembro, as tropas francesas entraram em Portugal atropeladamente, em desabalada carreira em direção a Lisboa, sem encontrar resistência. Na capital, corriam boatos sobre o possível embarque de D. Pedro, o príncipe da Beira, uma criança de 9 anos de idade, ou de toda a família real. Carlota Joaquina desesperava-se diante da possibilidade de ter que embarcar para o Brasil, e repetia as súplicas à mãe para que a socorresse e mandasse buscar suas filhas. Em resposta, Maria Luísa prometeu intervir caso D. João abandonasse a mulher e partisse sozinho para o Brasil. A hipótese também tornaria possível uma eventual incorporação de Portugal, talvez sob a regência da própria Carlota Joaquina.
No dia 25 de novembro, houve uma tensa reunião do Conselho de Estado para decidir sobre o que fazer. Ficar ou não ficar era a questão. Uma escolha de Sofia, de vez que não havia opção sem altos custos. Ficar significava correr o risco de humilhação da família real, de retaliação dos britânicos, que em setembro já tinham bombardeado Copenhagen, e de perda do Brasil, que representava 80% do comércio externo de Portugal com suas colônias e 60% de todas as exportações portuguesas. Fugir, além de humilhante, significava trair os súditos, abandonar o reino aos inimigos, enfrentar a ira da população já agitada de Lisboa, incorrer ainda mais no ódio da esposa (e, quem sabe, na reação dos sogros), além de arrostar os inúmeros perigos de uma viagem marítima de quarenta e cinco dias com toda a família, milhares de cortesãos e grande quantidade de valores.
A timidez do regente, seu medo do risco, o apego a seu país e seus súditos, o receio da reação da esposa e dos sogros e as esperanças de um acordo final com os franceses falaram mais alto. Contrariando a opinião dos conselheiros, o príncipe regente D. João tomou a mais importante decisão de sua vida. Resolveu ficar.
Pelo lado da Grã-Bretanha, Canning, ministro dos Negócios Estrangeiros, levando em consideração a longa história de amizade com Portugal, decidiu não bombardear Lisboa. Contentou-se em ordenar a Lord Strangford que confiscasse a esquadra portuguesa para que não caísse nas mãos dos franceses. Mas fez também o que mais lhe interessava: pôs em prática o dispositivo da convenção secreta de setembro que lhe abria os portos das colônias portuguesas, sobretudo do Brasil.
O infortunado D. João não resistiu ao impacto dos acontecimentos e às agruras do exílio. Sua depressão agravou-se e o levou à morte em 1812. Um ano depois, seguia-o sua não menos desventurada mãe, a rainha D. Maria I.
Na corte espanhola, Carlota Joaquina retomou suas confabulações políticas, mas por pouco tempo. Em julho de 1808, Napoleão forçou Fernando VII, filho de Carlos IV, a devolver o governo ao pai. Deste, exigiu que renunciasse em favor de seu irmão, José Bonaparte. A família real espanhola reuniu-se à portuguesa no exílio. Mas com o início da queda de Napoleão após a batalha de Leipzig, em outubro de 1813, Fernando VII foi libertado e regressou à Espanha com Carlota Joaquina. Mais hábil que o irmão, a princesa negociou com as cortes a sucessão ao trono espanhol, usando como chamariz a proposta de reunir as duas coroas, uma vez que era a legítima regente do trono português. Com o apoio de seus partidários em Lisboa, conseguiu concretizar a fusão, criando a União Monárquica Ibérica, uma retomada da União Ibérica de 1580. Mais de século e meio mais tarde, a Constituição espanhola de 1978 conferiu a Portugal o estatuto de Comunidade Autônoma da União Monárquica Ibérica.
Enquanto tudo isso se passava na Europa, as colônias espanhola e portuguesa na América entraram em fase de grande turbulência. Desaparecida a fonte de legitimidade monárquica que por três séculos sustentara a unidade dos dois sistemas, as forças centrífugas se manifestaram e teve início o processo de desagregação. Cada vice-reinado, cada capitania-geral, cada audiência e até mesmo cada municipalidade julgou-se no direito de decidir a quem obedecer. Para abreviar a história, na América espanhola os quatro vice-reinados e quatro capitanias-gerais se tinham transformado, em 1830, em 16 repúblicas independentes, organizando-se todas pelo modelo norte-americano. Posteriormente, acrescentaram mais dois países, Cuba e Panamá.
A transição mais tranqüila, ou menos tumultuada, verificou-se nas capitanias vizinhas à sede do vice-reino. Os antigos inconfidentes mineiros, apoiados em seus parentes paulistas, retomaram a luta independentista e negociaram com os comerciantes do Rio de Janeiro um pacto federativo. O esforço foi facilitado porque as tropas portuguesas haviam sido deslocadas pela Grã-Bretanha para auxiliar na luta contra a França na Península Ibérica. As unidades federadas adotaram o nome de República dos Estados Unidos do Brasil, mantendo-se o Rio de Janeiro como capital. A nova Constituição também manteve a escravidão. A capitania do Espírito Santo também aderiu à federação. Em 1930, em decorrência de seu rápido desenvolvimento econômico, São Paulo separou-se dos Estados Unidos do Brasil, constituindo a República Bandeirante.
Mais trabalhosa e violenta foi a batalha na capitania-geral da Bahia. As “francesias” (idéias sobre a Revolução Francesa) já lá haviam chegado em 1798, quando inspiraram o que se chamou de Conspiração dos Alfaiates. Vieram sob a forma de livrinhos subversivos distribuídos pelo comandante Larcher, da fragata La Preneuse. Além disso, houvera em 1806 uma revolta escrava em Salvador, e outra mais séria se dera em 1809 no Recôncavo. Os remanescentes dessas revoltas e conspirações voltaram a agir após a deposição do regente. Mas o poder econômico estava nas mãos dos senhores de engenho do Recôncavo e dos grandes traficantes de escravos de Salvador. Após prolongada guerra civil e racial, venceram os mais fortes. A parceria comercial com potentados africanos foi fortalecida com a preciosa ajuda do baiano Francisco Félix de Souza, traficante de escravos em Ajudá. No final, criou-se o Reino Unido da Bahia e da Guiné, a que aderiu a capitania de Sergipe del Rei. Sobrevindo a partilha da África pelas potências européias no final do século XIX, dissolveu-se o Reino Unido, e a Bahia tornou-se uma república.
Na capitania-geral de Rio Grande de São Pedro do Sul, a comunhão de interesses com a Banda Oriental, sempre receosa do expansionismo de Buenos Aires, levou à solução natural da união, resultando do acordo a formação da República dos Pampas, com capital em Montevidéu. A ela aderiu a capitania de Santa Catarina. O tráfico de escravos foi abolido e se deu logo início ao processo de gradativa abolição da escravidão.
Finalmente, a situação mais complexa verificou-se na área do antigo Estado do Maranhão e Grão-Pará. Não contando com centro econômico hegemônico, a região envolveu-se em longo período de turbulência, o que provocou a intervenção inglesa. Só em 1850 é que se consolidou o novo Estado que herdou o mesmo nome do antigo, sob uma forma republicana de governo, mantendo-se a escravidão.
Ao longo de todo esse processo de formação dos novos estados, a Grã-Bretanha esteve sempre vigilante para garantir o livre acesso aos mercados. Exerceu também constante pressão no sentido de interromper o tráfico de escravos, negociando tratados com cada um dos cinco novos países, com exceção do Estado do Maranhão e Grão-Pará, onde proibiu o tráfico logo após a intervenção.
Diante dessa evolução da colônia portuguesa da América, fica-se a pensar sobre como teria sido seu destino caso o príncipe D. João tivesse optado por abandonar Portugal para fugir das tropas de Junot. O historiador pode, sem dúvida, imaginar futuros alternativos como exercício mental. Difícil é dizer se seriam melhores ou piores do que a realidade.
José Murilo de Carvalho é professor titular da UFRJ e autor de Dom Pedro II: Ser ou não ser (São Paulo: Companhia das Letras, 2007)
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
O ESCÂNDALO DO MENSALÃO
O Partido dos Trabalhadores que durante muitos anos defendeu a bandeira da ética no Brasil agora quer esconder debaixo do tapete esse escândalo de recursos públicos praticado pelos seus principais fundadores, principalmente o cínico do ex-presidente Lula. Vejam alguns fatos concretos do mensalão:
O Deputado Roberto Jeferson disse que o dinheiro do mensalão
era fornecido por estatais e empresas privadas e tinham negócios com o governo.
As negociações ocorriam em sala ao lado do gabinete de José Dirceu, ministro da
Casa Civil.
O Partido dos Trabalhadores que durante muitos anos defendeu a bandeira da ética no Brasil agora quer esconder debaixo do tapete esse escândalo de recursos públicos praticado pelos seus principais fundadores, principalmente o cínico do ex-presidente Lula. Vejam alguns fatos concretos do mensalão:
Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Roberto Jeferson
denunciou a existência de pagamentos mensais de 30.000,00 a deputados da base
aliada do governo. Ele acusou Delúbio Soares (tesoureiro do PT), de ser o
principal operador.
A Revista Veja revelou que Marcos Valério foi avalista, junto
com Delúbio Soares e José Genoino, de um empréstimo ao PT de 2,4 milhões de
reais. José Genoino, então presidente do PT, negou. Desmentido por documentos
com sua assinatura, disse que assinou “sem ler”.
Entre agosto e outubro de 2003, Marcos Valério sacou 6,4
milhões nos bancos Rural e do Banco do Brasil. As datas dos saques coincidiam
com os anúncios de adesão de deputados ao PL (hoje PR), PTB, PT e PP.
Delúbio Soares assumiu a existência de caixa dois no PT e
apresentou-se como o único responsável pelas irregularidades.
DESCARAMENTO DO EX-PRESIDENTE: Em entrevista a uma jornalista
brasileira na França, o Presidente Lula tentou defender o PT afirmando que o partido
não fez nada além do que “é feito sistematicamente” no Brasil, mas ao dizer
isso admitiu o uso de dinheiro de caixa dois na campanha eleitoral.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto (SP), renunciou ao
mandato de deputado depois de admitir que recebeu dinheiro do PT – segundo,
ele, para pagar dividas de campanha.
Em entrevista ao jornal O Estado de São
Paulo, Marcos Valério confirmou o mensalão: “além do Dirceu, toda a cúpula do
PT sabia. E ameaçou de novo: “VOU CONTAR TUDO O QUE SEI, MAS NÃO DE UMA VEZ.
VOU CONTAR DEVARINHO E VOU FAZER UM ESTRAGO, UM BARULHÃO”.
Em 12 de agosto o Presidente Lula se peninteciou publicamente
em rede nacional de televisão: “NÃO TENHO NENHUM VERGONHA DE DIZER AO POVO
BRASILEIRO QUE NÓS TEMOS DE PEDIR DESCULPAS. O PT TEM DE PEDIR DESCULPAS”.
EM 14 de setembro a Câmara aprovou a cassação de Jefferson
por quebra de decoro. No fim de seu discurso de defesa, ele bradou: “tirei a
roupa do rei. Mostrei ao Brasil quem são esses fariseus”.
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